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O abismo entre estudar e se preparar para o parto

Foto do escritor: Lucia Lemos
Lucia Lemos
27 de jun.
8 min de leitura

Por que encher a cabeça de teoria não garante uma experiência conectada (e o que você realmente precisa treinar).



Você já teve a sensação de que algo não estava bem, mesmo quando, aparentemente, tudo corria dentro do normal? Ou aquela vez em que, por algum motivo, você não estava com vontade de ir a um lugar, mas preferiu cumprir com a sua palavra ou com o que esperavam de você, e foi? E algo aconteceu. E então você se lembrou de que não queria ir desde o início. Isso é a intuição. Uma bússola interna, selvagem e puramente instintiva. No parto, essa é la voz que você precisa ouvir, mas passamos meses treinando a mente com teoria e nos esquecemos de sintonizar o canal certo.


Quando descobrimos que estamos grávidas, o medo e a ansiedade são as primeiras emoções a aparecer. Pouco a pouco surge a necessidade de se preparar para o parto e começamos a buscar informação, a estudar e a tentar entender tudo aquilo que nos faça sentir mais preparadas para esse dia. E não, neste post não vou fazer apologia contra a informação. Não vou negar que você precisa saber e conhecer algumas coisas. Você não deveria chegar ao seu parto sem conhecer quais são os seus direitos, como funcionam os hospitais, ou se realmente é necessário fazer um corte no períneo para que o seu bebê tenha espaço e nasça. Como tudo na vida, a preparação para o parto é um equilíbrio. "Una de cal y una de arena" ("Uma de cal e uma de areia"), como dizemos no Uruguai.


Justamente na busca por esse equilíbrio é que, na minha própria vida, tento lembrar que além de termos um corpo tão espetacular que funciona como uma máquina perfeita — com o cérebro sendo sua torre de comando —, também somos seres espirituais. Somos corpo e mente. E alma. Somos consciente e inconsciente. Somos a nossa história, os nossos traumas, os nossos sonhos e desejos, os nossos medos, e tudo isso participa do parto. Parir não envolve unicamente um útero que se contrai, uma pelve que se abre e um feto que nasce.

Há algo que nunca me "desceu muito bem" sobre dar "aulas de preparação para o parto". E coloco entre aspas porque "aula" me soa como uma dinâmica onde eu sou a detentora do conhecimento e o transmito para a outra parte que, por consequência, não sabe. E justamente isso é o que nunca fez sentido para mim, desde a minha época de estudante. No meu último ano de faculdade, quando me formei como parteira profissional — que foi um ano inteiro de práticas —, eu sentia um frio na barriga cada vez que tinha que dar essas aulas. Nunca me sentia segura. Pensava: "e se me perguntarem algo que eu não sei?". Porque o que tinham me ensinado sobre a preparação para o parto (e logo você verá que também não gosto de chamar assim) era dar quase uma aula de anatomia ou fisiologia. Um dos meus maiores medos era que as mulheres ficassem entediadas. E claro, quem não fica entediado em uma palestra teórica de anatomia ou fisiologia? E pior ainda: quem lembra dessa quantidade de palavras, nomes e processos? Mas a pergunta mais importante e que eu quero te fazer, se você está guardando dezenas de PDFs ou pensando em fazer isso, é:


Para quê?

Voltando ao tema de chamar de "aula" — e calma, já sigo com a linha de raciocínio que dá sentido ao título deste post. Quando vamos à aula de piano é porque queremos aprender a tocar esse instrumento. Ou à aula de pilates, porque não somos formadas nisso e a professora sim, então ela sabe qual exercício eu tenho que fazer para trabalhar essa parte do corpo que precisa de atenção. Vamos transladar isso para o parto: como você imaginava, antes de estar grávida ou antes de ir a uma aula de parto, que seria? O que você pensa que se ensina em uma? Seguindo os outros exemplos, o que você espera aprender? Ou o que você precisa que te digam como fazer?


Até agora, não conheci uma única doula que não dê as suas aulas seguindo uma apresentação na tela. Uma das tantas coisas que faço diferente das minhas colegas. Mas ser um "bicho estranho" é algo familiar para mim. Escrevi sobre isso no post "A mulher que acompanha também é parte do caminho". Novamente, a imagem que vem à minha cabeça (e provavelmente à sua) é a mesma: ela sabe, eu não; ela vai me ensinar. E não, como já disse: não vou fazer uma apologia contra a informação teórica. Mas sim, quero questionar o modelo tradicional de preparação que a maioria das grávidas recebe.


E aqui é onde eu entro no mesmo terreno que estou tentando questionar e vou te explicar algo: há uma parte do nosso cérebro chamada "neocórtex", ou "córtex pré-frontal". É a parte mais recente na evolução da espécie Homo sapiens sapiens (também conhecida como ser humano). É a que está permitindo que você leia este texto, te permite imaginar, entender e pensar. É a parte racional que nos distingue e diferencia de outros animais. Mas você sabe qual é a parte do ser humano que não mudou, o fato em que continuamos sendo iguais? Continuamos sendo mamíferos. Continuamos tendo a parte mais antiga do nosso cérebro, que se encarrega de que sejamos capazes de realizar processos vitais como respirar, digerir ou urinar sem termos que pensar nisso.



Agora eu te pergunto: como pretendemos controlar com o neocórtex (lendo PDFs e olhando apresentações) um processo que pertence puramente ao nosso cérebro mamífero e instintivo?

Você já ouviu falar da "humanização do parto e nascimento"? É uma corrente linda que tenta devolver a dignidade e o protagonismo à mulher que está parindo e a esse bebê que está nascendo. Mas o obstetra francês Michel Odent foi além e propôs o seguinte conceito: Mamiferizar o nascimento. Não é espetacular? Eu acho que sim, e vou te explicar do que se trata e por que concordo 200% com ele.


Mamiferizar o parto significa algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão desafiador hoje em dia como conectar com o corpo e voltar a acreditar na sua própria força e capacidade biológica de parir. O seu corpo sabe como fazer, da mesma maneira que sabe bater o coração ou respirar. Não precisa que uma tela lhe explique o caminho. Mas há algo de que ele sim precisa: um ambiente favorável. Longe de querer aprofundar em fisiologia e mecanismos hormonais, você precisa entender que para que o parto flua como o processo natural que é, é necessário um contexto que ajude: iluminação e temperatura adequadas, nada de interrupções, distrações e, muito menos, intervenções desnecessárias. Então, aí pode ser que a teoria e os PDFs sirvam: para poder se negar com segurança a um procedimento médico, você precisa (e sobretudo o seu acompanhante) saber argumentar por que não o deseja. E a isso se chega lendo, sim. Mas há um plano muito mais sutil na experiência do parto que você não vai encontrar em nenhum livro nem página de maternidade.


Você se lembra dos dois exemplos com os quais comecei este post? Essa voz que te diz para não ir a um lugar ou essa sensação no corpo de que algo não está bem. Tenho certeza de que alguma vez isso já te aconteceu. e não necessariamente quando você foi a esse lugar aconteceu uma catástrofe. Talvez você simplesmente tenha ficado contando os minutos para voltar para casa e relaxar. Mas o que tudo isso tem a ver com o parto? Vamos lá.


Imagine esta situação: você está em trabalho de parto há horas. Sente como as contrações são cada vez mais intensas e seguidas. De repente, começam a ser mais curtas e espaçadas, e você pode sentir como a cabeça do seu bebê faz uma pressão insuportável do lado esquerdo da sua pelve. O espaço de tempo entre uma contração e a próxima te deixa recuperar um pouco de energia, tomar um gole de água. De repente, você descobre que se levantar essa perna e a apoiar no degrau, a pressão alivia. Você está submersa no seu processo, sentindo o seu corpo e os movimentos do seu bebê, que já está mais embaixo do que quando você começou a ter contrações naquela manhã. Então entra um médico, coloca a mão na sua barriga por dez minutos (a isso chamamos tecnicamente de "controlar a dinâmica uterina") e sentencia:


As suas contrações não estão sendo eficientes. São muito curtas. Vamos te colocar um sorinho para ajudar.

Para tudo!


Você não está sentindo a cabecinha dele se encaixar lentamente na pelve? E se as contrações diminuíram porque agora a prioridade não é empurrar o bebê para baixo, mas sim acomodar a sua posição? Tecnicamente, isso se chama "assinclitismo". Mas você não precisa lembrar dessa palavra. Agora estamos diante de um médico que está te dizendo que o seu corpo não sabe fazer o seu trabalho. Porque no livrinho dele dizia que as suas contrações tinham que ser diferentes. Então ele vai consertar o seu útero. Vai fazer com que ele se contraia como ele aprendeu que deveria se contrair.


Outro cenário seria se você não tivesse a menor ideia do que está acontecendo dentro de você. Porque na sua vida você jamais parou para sentir o seu corpo. Para perceber como mudam as suas sensações quando você respira de tal ou qual forma. Ou onde aparece uma dor quando você se senta em determinada posição. Talvez você também não tenha se tomado a liberdade de não ir a um lugar que não queria, porque os outros pensavam que você deveria ir. O seu corpo fala com você. Mas nenhum livro nem curso teórico te ensina a escutá-lo. É um exercício para a vida. Um hábito.


Quando Odent fala de mamiferizar o parto, ele se refere a conseguir desligar esse neocórtex. Ouvir essa sensação que te diz que o parto está avançando, mesmo que o médico diga que não. Intuição e conexão com o corpo são tão importantes na preparação para o parto quanto estudar as leis, os planos de DeLee ou saber a porcentagem de eficácia dos diferentes métodos de indução do parto.


Sempre me caracterizei por ir contra a corrente, questionar tudo e me sentir fora da caixa. Já tentei me encaixar e não funcionou. Por isso, a minha forma de trabalhar e acompanhar é um pouco diferente do que outras doulas fazem. O que elas fazem não está errado, e o meu não é melhor. É diferente. Um pouco. Só isso. Primeiro, a palavra que acabei de usar é chave: eu acompanho processos, não dou aulas. Tudo bem com a "educação perinatal", mas nem eu tenho uma academia, nem você quer ser educada. Quantos encontros tem o meu pacote de acompanhamento? Os que você precisar. Mais os que eu considerar necessários. Muitas vezes sinto a necessidade de falar de algum tema em particular ou de trazer alguma informação; outras vezes, sinto que você está atravessando algo e precisa de presença, então vou te propor nos encontrarmos na praia ou tomar um café, e simplesmente falar da vida e rirmos um pouco. Logicamente, às vezes você vai precisar entender o que significa esse valor de glicemia que deu no seu exame ou por que estão te pedindo um doppler fetal que não é de rotina. Então, aí lemos os PDFs que forem necessários e analisamos estatísticas.


Mas para poder te acompanhar neste caminho, preciso que você, antes de mais nada, se perceba como um todo. Deixe de se pensar como uma máquina incubadora. Isso é o que o sistema te fez acreditar, mas nada está mais longe da realidade. Você é mãe, sim. Mas antes disso, você é mulher, é filha, parceira, amiga. Antes de engravidar, a sua vida já tinha começado. Você já ouviu histórias horríveis sobre partos de dor e sofrimento. Você já sofreu abandonos, medos, traumas, violência. Tudo isso entra junto com você na sala de parto. E, ao contrário do que o sistema médico hegemônico te fez acreditar, isso influencia e importa tanto quanto a teoria no processo vital mais precioso da vida humana.



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