A mulher que acompanha também é parte do caminho.
- Lucia Lemos
- 14 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de mar.
A doulagem e a mulher que me tornei

Quando comecei a me formar e a atuar na área da gestação, do parto e da amamentação, eu ainda enxergava esse universo de uma forma muito diferente da que enxergo hoje. E isso porque eu não era a mesma mulher que sou hoje.
Comecei a estudar na universidade em 2012 e só me formei em 2021. Uma graduação que, em teoria, duraria cinco anos, acabou levando quase dez. Só hoje consigo entender por que eu não conseguia passar nas disciplinas do primeiro ano — etapa que me levou quatro anos. Não era falta de inteligência, nem de capacidade. Hoje eu consigo nomear o que era.
No início, eu buscava aprender, saber, me preparar. Queria reunir conhecimentos, ferramentas, respostas. Durante muito tempo, busquei sentir que estava pronta. E tudo isso foi importante. A formação me deu base. Mas, com o tempo, fui percebendo que esse caminho, para mim, não cabia apenas no campo da técnica ou da informação. Na verdade, havia uma voz dentro de mim que sempre tentava me guiar — e que eu sempre tentava ignorar. Eu nunca me sentia preparada.
E, na verdade, eu não estava.
Só que nunca foi sobre conhecimento. Essa preparação — demorei para entender — não era técnica.
E é aqui que começa a minha história na doulagem. Depois de terminar a faculdade, passar anos para fazer o TCC e finalmente obter o meu diploma, passei outros tantos anos dizendo, para mim mesma e para o resto do mundo, que eu não conseguia trabalho. A verdade é que eu não estava procurando. Aquela voz que tentava me guiar — chamemos de intuição — me dizia que não era por ali. Me inscrever em um concurso para trabalhar dando plantão em um hospital não fazia sentido para mim. O que eu sentia era que não estava preparada. E se chegasse uma mulher em uma emergência e eu não soubesse o que fazer? E se uma mulher me perguntasse algo e eu não soubesse responder?
Hoje eu consigo ver que aquele trabalho, aquele estilo de vida, não faziam sentido para mim. Passar 12 ou 24 horas em um plantão atendendo mulheres que eu não conheço — e que, claro, também não me conhecem —, sem saber a história delas, como chegaram até ali, assistir um parto e nunca mais vê-las... para mim, isso não faz sentido. Quero deixar claro, porque não sei quem vai ler este texto, que eu não acho que esse trabalho esteja errado. Alguém precisa fazê-lo. E tomara que quem o faça, faça com todo o amor do mundo, entendendo que, para aquela mulher e para aquela família, aquele momento é único. Mas, para a Lucía, esse não era o caminho.
Meu caminho na doulagem começa em 2024, um pouco antes de eu me formar como doula. Depois de terminar o relacionamento mais saudável que tive nos meus — na época — 31 anos, decidi que já não havia mais nada no Uruguai para mim. Eu não tinha nada que me prendesse àquele lugar: não tinha um trabalho estável — e muito menos um trabalho de que eu gostasse —, não tinha responsabilidades como filhos ou uma casa, e agora tampouco tinha uma relação.
Então, eu, que trabalhava como professora de educação sexual em uma escola, pensei: “Em 30 de novembro terminam as aulas, tiro quinze dias para me organizar, e no dia 16 de dezembro eu vou embora”. E assim foi. No dia 16 de dezembro, saí de casa com uma mala e cheguei em Floripa sem nunca ter vindo antes, sem muitos planos. Meu único plano era um que, por enquanto, está descartado: revalidar o meu diploma de parteira e trabalhar aqui.
Aqui vou resumir um período de 15 meses: foi um ano intenso, cheio de altos e baixos e, sobretudo, de mudanças. Muitas mudanças. Hoje eu entendo que a vida também é isso: fazer planos para mudá-los.
Com essa sensação de não me sentir preparada, fui trilhando diferentes caminhos: fiz — e ainda faço — trabalho voluntário, fiz parte de uma equipe de doulas, participei de uma mentoria para doulas. E essa última experiência foi um grande divisor de águas para mim. A Thati me ajudou a entender que aquilo que eu sentia, aquela insegurança, não era outra coisa senão a minha “mulher selvagem”, como ela chama, embora também possamos chamar de intuição, alma, destino, Deus... me guiando até aquilo que sou hoje.
Hoje acredito que minha vida pessoal e a minha profissão caminham de mãos dadas. Se pensamos em como surgem a parteira e a doulagem, a alma, a essência desse trabalho está justamente aí: uma mulher acompanhando outra mulher. E isso nunca acontece de forma neutra ou vazia. Acompanhamos com tudo o que somos. Com nossa presença, nossa escuta, nossa história, nossa forma de sentir o mundo.
Sinto que não existe separação entre a mulher que eu sou e a forma como acompanho outras mulheres. A doulagem, para mim, caminha inevitavelmente junto com a vida pessoal. Hoje sei algo que eu já intuía há muito tempo: acompanhar uma mulher na gestação, no parto e no pós-parto nunca é apenas oferecer recursos. É estar. É sustentar presença. É olhar para a outra não como alguém que precisa ser conduzida, mas como alguém que carrega dentro de si uma sabedoria, uma história, uma força e também as suas vulnerabilidades.
Para conseguir estar assim diante de outra mulher, eu também precisei olhar para mim. Precisei revisitar minhas próprias camadas, minha forma de ver o corpo, os processos da vida, os tempos, o controle, a entrega, a escuta, a sensibilidade. Aos poucos, fui entendendo que o meu caminho na doulagem também é um caminho de transformação pessoal.
É a partir dessa visão que escolho acompanhar.
Com respeito.
Com escuta.
Com presença.
Com sensibilidade.
E com a consciência de que cada encontro também me transforma um pouco.
Esse caminho segue em movimento. Sigo estudando, aprendendo e me aprofundando. Mas hoje compreendo que a formação mais viva também acontece no encontro real com cada mulher, cada história e cada processo.
E é desse lugar que ofereço o meu cuidado.
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Que bonito ler a forma como você conta a sua história, cheia de sensibilidade e conexão com a intuição feminina. Mesmo sem saber exatamente qual seria o seu destino, você sentia com clareza os caminhos que não queria seguir — e isso já revela uma presença muito profunda em si mesma.
Essa escuta interior nos permite viver uma vida mais viva e coerente com nossas verdades. Uma vida com alma, se assim posso nomear.
Te desejo muito sucesso nessa jornada e muitas mulheres para acompanhar. Tenho certeza de que sua colheita será linda e que sua presença fará uma diferença profunda na vida de muitas famílias.